Cristiéle Borgonovo
Em 22 de junho de 2025, o Vale do Rio Tijucas se despedia de uma das figuras mais marcantes da história de São João Batista: Jair Sebastião de Amorim, o Nonga, partia deixando uma história que se confunde com a própria trajetória de desenvolvimento da Capital Catarinense do Calçado.
Mais do que um político, Nonga foi um homem que conheceu a dor da pobreza, enfrentou adversidades desde a infância e transformou cada dificuldade em combustível para construir uma vida dedicada ao trabalho e ao bem comum.
Sua história começou de forma dura. Aos dois anos de idade perdeu a mãe. Cresceu em meio às dificuldades, conhecendo de perto a realidade da fome e da escassez. Menino simples, corria descalço pela poeira da Rua Jorge Lacerda; a Farroupilha batistense, sem imaginar que aqueles mesmos pés o levariam, anos depois, aos mais altos cargos da vida pública local e regional.
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O sapateiro que aprendeu a servir

Nonga no Calçados Marcia, primeiro emprego como sapateiro; ele está de pé e blusa branca
Aos 12 anos, iniciou a trajetória profissional na Calçados Marcia, empresa do senhor Getúlio Clemes. Foi ali que encontrou muito mais do que uma profissão. Segundo o filho, Oberdan de Amorim, Nonga costumava dizer que foi com o primeiro patrão que aprendeu valores que carregaria por toda a vida: honestidade, respeito e solidariedade.
Na profissão de sapateiro, moldava o couro para fabricar calçados. Ao mesmo tempo, moldava o próprio caráter. Apaixonado pelo trabalho, acreditava que o desenvolvimento coletivo era o caminho para transformar vidas.
Essa ligação com os trabalhadores o levou a fundar, em 1992, o Sindicato dos Sapateiros, em um período decisivo para a economia local, quando a indústria calçadista começava a ocupar o espaço deixado pela decadência da produção açucareira.
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O homem da família

Nonga junto aos familiares
Em 28 de fevereiro de 1976, casou-se com Vera Lúcia Peixer, a querida Vera do Nonga. Da união nasceram Syntia, Oberdan e Izabella. Mais tarde vieram os netos João Vitor, Fernanda, Heloisa e Helena Inês, que ampliaram ainda mais seu amor pela família.
Nonga era conhecido por ser um pai presente e dedicado. Defendia que a educação era o principal instrumento para construir um futuro digno. Como avô, tornou-se ainda mais afetuoso, participando da vida dos netos e celebrando cada conquista.
Também cultivava outra paixão: o esporte. Torcedor declarado do Flamengo, jogou futebol por equipes tradicionais do município, como Tapes, Comercial e Usati. Durante 25 anos participou das atividades da Associação Batistense de Veteranos (ABV), mantendo amizades que levaria para toda a vida.
“O pai tinha com ele essa parte humana, de querer ajudar quem precisava. Fico feliz e honrado de as pessoas conversarem comigo e sempre trazerem uma lembrança boa dele. Em relação a nossa cidade, sempre teve muito orgulho de São João Batista, de conseguir ter deixado um legado”, conta o filho Oberdan, emocionado sem conseguir conter as lágrimas.
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Do bater do solado ao pulsar na política

O então prefeito Nonga, junto ao então governador Luiz Henrique da Silveira (MDB)
A política surgiu cedo em sua vida. Aos 18 anos filiou-se ao PMDB, atual MDB, convencido de que poderia ajudar outras pessoas que, assim como ele, haviam enfrentado dificuldades.
Em 1977 foi eleito vereador de São João Batista, iniciando uma longa trajetória de serviço público. Exerceu o mandato até 1982 e, anos mais tarde, atuou como assessor da Casa Civil do Governo do Estado durante a gestão de Pedro Ivo Campos.
Com habilidade de diálogo e grande capacidade de articulação, conquistou respeito entre diferentes setores da sociedade. Conversava com agricultores, empresários, operários e profissionais liberais com a mesma naturalidade. A proximidade com a população tornou-se uma das principais características de sua atuação pública.
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O prefeito que ajudou a construir uma nova São João Batista

Como prefeito, Nonga investiu na Educação, uma de suas paixões
Em 1º de janeiro de 1997, assumiu a Prefeitura de São João Batista, em um dos momentos mais difíceis da história econômica do município. A cidade enfrentava sérias dificuldades financeiras após o fechamento da Usati, e a queda brusca da arrecadação. Diante do cenário desafiador, promoveu uma ampla reorganização administrativa e buscou alternativas para recuperar as finanças municipais.
Durante os dois mandatos consecutivos, entre 1997 e 2004, liderou uma série de transformações que marcaram o município.
Na educação, implantou um modelo que garantiu um professor para cada série escolar, ampliando a qualidade do ensino municipal. Na saúde, promoveu a ampliação do Hospital Monsenhor José Locks, criou a Clínica do Povo, implantou novos postos de saúde e trouxe para o município o Programa Saúde da Família.
A infraestrutura também avançou. Foram realizadas obras de pavimentações, drenagens, construiu a Capela Mortuária, a Creche Dona Chiquinha, a Ponte do Imigrante Italiano e teve a implantação da Delegacia de Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros.
No meio rural, investiu na aquisição de máquinas agrícolas, recuperação de estradas e implantação de aproximadamente 33 quilômetros de rede de abastecimento de água para comunidades do interior.
Outro marco foi a construção do Aterro Sanitário Municipal, considerado referência regional e exemplo de gestão ambiental para a época.
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Nonga disse sim para a Comunidade Bethânia

Nonga junto com Eduardo Pinheiro Moreira
A história do Nonga também se entrelaça profundamente com o nascimento e crescimento da Comunidade Bethânia fundada pelo Servo de Deus Padre Léo, há 30 anos. Homem público, de fé sólida e coração generoso, acolheu o sonho de Bethânia desde o início. À época vice-prefeito do município, foi um dos primeiros a dizer “sim” quando Padre Léo apresentou a proposta de criação de uma comunidade voltada ao acolhimento e à restauração de vidas. Mais do que apoiar institucionalmente, Nonga se envolveu de corpo e alma na construção daquilo que viria a se tornar um refúgio para tantos: pegou no machado, ajudou a cortar árvores e construiu com as próprias mãos a cruz da primeira missa celebrada em Bethânia.
Mesmo sem residir fisicamente na Comunidade, Nonga era, em essência, parte dela. Sua presença constante, sua disponibilidade e o amor incondicional à missão deixaram marcas profundas e permanentes. Em uma de suas participações no programa Na Tenda do Senhor, ao lado de Padre Léo, Monsenhor Jonas Abib e Jucélia Ludvig, ele testemunhou publicamente a amizade com o fundador e seu envolvimento com a Comunidade. A fala, repleta de emoção, era o reflexo de uma fé vivida com intensidade e simplicidade.
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O legado que permanece

Nonga junto aos ex-governadores Paulo Afonso Vieira e Casildo Maldaner
Talvez nenhuma realização represente tanto sua visão de futuro quanto o incentivo à indústria calçadista.
Em 2003, idealizou o primeiro Arranjo Produtivo Local (APL) do setor calçadista do Brasil, iniciativa pioneira que fortaleceu empresas, gerou empregos e consolidou as bases do desenvolvimento econômico do município. A atuação ajudou a fortalecer o título conquistado por São João Batista em 2001: o de Capital Catarinense do Calçado. Em 1990 participou ativamente da fundação do Sindicato das Indústrias de Calçados de São João Batista (Sincasjb). Anteriormente, também foi um dos membros fundadores do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Calçadistas (Sintrical).
Após deixar a prefeitura, continuou servindo à população como secretário de Desenvolvimento Regional de Brusque entre 2005 e 2009, participando da viabilização de importantes obras para toda a região. Também esteve a frente da antiga Fatma, hoje Instituo do meio Ambiente (Ima).
Após um ano da sua partida, permanece viva a lembrança do menino pobre que venceu as dificuldades, do sapateiro apaixonado pelo trabalho, do pai e avô amoroso e do líder político que dedicou a vida a melhorar a realidade das pessoas.
Nonga partiu, mas deixou em São João Batista algo que o tempo não apaga: o exemplo de perseverança, humanidade e compromisso com o bem comum.
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As lembranças permanecem, o legado continua e o amor jamais será esquecido

Nonga e Vera, no iníco de namoro

Vera e Nonga, na cerimônia de casamento

Nonga, na Câmara de Vereadores

Ciro Rosa, Nonga e Dagomar Carneiro

Junto ao ex-governador de São Paulo, Mário Covas

Nilson Booz, Aldo Xavier, Francisco Peixer, Marco Antônio, Nonga, Zezinho Clemes e Irmão

Como secretário da SDR Brusque

Nonga em uma partida de futebol

Nonga sendo homenageado pela Granfpolis, junto aos filhos Oberdan e Izabella

Investindo na Educação e Cultura

Junto ao ex-presidente Michel Temer


