Cristiéle Borgonovo
Há histórias que se confundem com a própria evolução de uma cidade. Em São João Batista, ao longo dos 68 anos de emancipação político-administrativa, milhares de vidas tiveram um mesmo personagem presente em um dos momentos mais importantes de suas histórias: o nascimento. O responsável por esse capítulo é o médico Gilberto Gonçalves Cândido, de 76 anos, que há cinco décadas dedica a vida à medicina.
Natural de Criciúma, Gilberto mudou-se ainda bebê para Florianópolis, onde passou a infância e a juventude. Filho de um policial bombeiro e de uma professora primária, cresceu em uma família sem tradição na área da saúde. Ainda assim, desde muito cedo já sabia qual profissão queria seguir.
Segundo os pais, quando ainda era menino, costumava dizer que seria médico para ajudar, curar e salvar vidas. O sonho permaneceu firme durante toda a juventude e foi sustentado por muito esforço e determinação.
Em 1970 ingressou no curso de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A caminhada, porém, esteve longe de ser fácil. Sem condições de frequentar cursinhos preparatórios ou adquirir todos os livros necessários, encontrou uma forma diferente de estudar. “Um amigo fazia curso pré-vestibular. Ele estudava até às dez da noite. Depois eu ia até a casa dele, pegava os livros, estudava durante a madrugada, fazia minhas anotações e bem cedo devolvia para que ele pudesse utilizar novamente. Fiz isso durante vários meses. Meu quarto era todo coberto por anotações coladas nas paredes”, relembra.
A dedicação foi recompensada em 1976, quando concluiu a graduação. Ainda antes de receber o diploma, no penúltimo ano da faculdade, já atuava no hospital do município de Angelina. “Nós atendíamos de tudo. Não existiam especialidades. Fazíamos atendimento ambulatorial, urgência, emergência e partos. Foi uma fase de muito aprendizado.”
A vinda para o Vale do Rio Tijucas
Recém-formado, recebeu o convite para trabalhar em Nova Trento. Na época, apenas o doutor Tomaz Selau de Souza atendia à população, e o Hospital Imaculada Conceição, administrado pelas Irmãzinhas da Imaculada Conceição, necessitava de mais profissionais para suprir a demanda crescente. Foi ali que iniciou oficialmente a carreira médica.
A ligação com São João Batista começou dez anos depois. Em 1986, passou a atender os funcionários da Usati, iniciando uma relação que atravessaria gerações de famílias batistenses. Mas sua contribuição para a saúde do município começou antes mesmo dessa atuação.
Em 1977, ao lado do bioquímico doutor Aroldo Ângelo e de seu irmão, o saudoso médico Gelson Gonçalves Cândido, participou da criação da Clínica São Lucas, a primeira clínica médica instalada em São João Batista. Localizada na Rua Padre Januário, na subida do Morro da Igreja Matriz, a unidade representou um importante avanço para a estrutura de atendimento à população. O espaço permanece em funcionamento até os dias atuais, embora atualmente esteja sob outra administração.
Ao longo das décadas, o médico acompanhou o crescimento da cidade e também da rede de saúde. Em 2009 passou a integrar a equipe do Hospital Monsenhor José Locks, onde iniciou os atendimentos obstétricos. Atualmente, realiza consultas na Clínica Bem-Estar Saúde e permanece de sobreaviso para atender gestantes no hospital.
Quando questionado sobre quantos partos já realizou durante a carreira, a resposta impressiona até mesmo quem acompanha a trajetória. “Já passaram de oito mil.”
São milhares de crianças que chegaram ao mundo pelas mãos do médico, formando uma verdadeira árvore de gerações. Em muitas famílias batistenses, ele realizou o parto dos pais e, anos depois, também participou do nascimento dos filhos.
Ao celebrar os 68 anos de emancipação político-administrativa de São João Batista, a história do doutor Gilberto também merece ser lembrada. Mais do que acompanhar o desenvolvimento do município, ele fez parte dele, ajudando a construir uma saúde cada vez mais estruturada e, principalmente, dedicando sua vida ao cuidado com as pessoas.
Em uma cidade que cresceu, se desenvolveu e se tornou referência em diferentes setores, o legado do médico permanece vivo em milhares de histórias. Afinal, poucas pessoas podem dizer que tiveram o privilégio de participar do primeiro capítulo da vida de mais de oito mil pessoas.
De médico a prefeito
Acostumado a atender pacientes nos consultórios e hospitais, Doutor Gilberto Gonçalves Cândido viu a rotina mudar completamente ao ingressar na vida pública. Em 1º de janeiro de 1993, assumiu a Prefeitura de São João Batista após vencer as eleições municipais, ao lado do vice-prefeito Jair Sebastião de Amorim, o saudoso Nonga, com cerca de 68% dos votos.
A caminhada política, no entanto, começou anos antes. Em 1988 disputou sua primeira eleição para prefeito, mas não foi eleito. Quatro anos depois voltou a colocar seu nome à disposição da população e conquistou a confiança dos batistenses para administrar o município.
Ao assumir o Executivo, encontrou um cenário desafiador. A cidade enfrentava dificuldades financeiras, agravadas pelo fechamento da Usati, um dos principais motores da economia local na época. “O primeiro ano foi para colocar a casa em ordem, mas, mesmo com tantas dificuldades, conseguimos realizar grandes obras”, relembra.
Entre as principais realizações da gestão estão a construção da Avenida Egídio Manoel Cordeiro, no Centro, a pavimentação de quase três quilômetros de asfalto no bairro Tajuba I, a implantação da Escola de Teatro, Dança e Música, a iluminação do Estádio Municipal Cristóvão Reinert dos Santos, a construção da Praça do Sapateiro, da Rodoviária Municipal e obras de pavimentação no bairro Krequer.
Uma das decisões mais marcantes do mandato ocorreu durante um período de fortes chuvas. O bairro Carmelo sofria constantemente com alagamentos provocados pela tubulação estreita da SC-410. Diante da demora na solução por parte do Governo do Estado, Doutor Gilberto tomou uma decisão que até hoje considera acertada. “Era de madrugada e estava chovendo. Fui até o local com uma máquina e mandei abrir o asfalto para resolver o problema. Depois tive que responder por isso, mas não me arrependo, porque solucionou definitivamente aquela situação”, recorda.
Outra marca da administração foi a aquisição de áreas para ampliar o patrimônio público municipal. Em um dos terrenos adquiridos no bairro Carmelo foram implantados, posteriormente, a Unidade Básica de Saúde, o Centro de Educação Infantil e o campo de grama sintética. Durante seu mandato também foi construída a sede da Delegacia de Polícia Civil.
Ao recordar aqueles anos à frente da Prefeitura, Gilberto destaca ainda uma iniciativa que permanece viva na memória dos batistenses. “Foi minha esposa, Leda, quem implantou o tradicional bolo de aniversário do município”.
Após décadas dedicadas à medicina e uma gestão marcada por importantes investimentos, Doutor Gilberto resume o que considera essencial para quem decide administrar uma cidade. “Para ser prefeito, a pessoa precisa ter três pilares: ser corajoso, trabalhador e honesto”.


