A aproximação entre Santa Catarina e a Ligúria ganhou um novo capítulo em 28 de outubro de 2026, com um encontro em São Paulo entre Charles Cavilha Boni, diretor executivo do Núcleo Lígure e de Relações Internacionais da Associação dos Descendentes e Amigos do Núcleo Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil (Adanpib), e o professor Luis Ramon Vaccaro, delegado do reitor da Universidade de Gênova para as relações com a América Latina.
A reunião teve como objetivo ampliar o diálogo institucional e explorar possibilidades de colaboração entre Santa Catarina e a região italiana da Ligúria, aproximando universidades, pesquisadores e comunidades ligadas à história da emigração italiana. A iniciativa conta com o apoio da Liguri nel Mondo e integra um trabalho de articulação voltado à construção de vínculos duradouros entre os dois territórios.
Dois encaminhamentos para aproximar instituições e comunidades
O encontro também resultou em dois encaminhamentos para dar continuidade ao diálogo entre Santa Catarina e a Ligúria. O primeiro é o compromisso de realizar uma videoconferência com a diretoria de internacionalização da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), com o objetivo de aprofundar as conversas sobre possíveis formas de cooperação acadêmica com a Universidade de Gênova.
O segundo é a proposta de avaliar o interesse dos descendentes lígures residentes em Santa Catarina em participar de um curso de língua italiana, possivelmente entre janeiro e fevereiro de 2027. A iniciativa busca identificar a demanda da comunidade e verificar as possibilidades de viabilização da atividade.
Os dois encaminhamentos representam perspectivas de continuidade do diálogo institucional, aproximando a cooperação universitária da valorização da língua, da cultura e dos vínculos históricos entre as comunidades brasileira e italiana. As iniciativas ainda dependem de articulação e avaliação para sua concretização.
Cooperação que vai além dos laços históricos
Para Charles Cavilha Boni, o fortalecimento dessa relação depende da capacidade de transformar a proximidade histórica e cultural em iniciativas concretas, com continuidade ao longo do tempo.
“Acredito firmemente que são os projetos e as ações concretas que mantêm vivas as relações entre as comunidades. Não basta um título, uma homenagem ou uma condecoração. Precisamos transformar os vínculos históricos em iniciativas permanentes, oportunidades de intercâmbio e atividades que aproximem as pessoas. É isso que dará continuidade a essa relação e permitirá que ela permaneça viva para as próximas gerações”, afirma.
A aproximação acadêmica também se insere em um movimento mais amplo de fortalecimento dos vínculos entre Santa Catarina e a Ligúria. Em 1º de setembro de 2026, São João Batista e Sassello avançaram nos trâmites para estabelecer um Pacto de Amizade, com a assinatura de um documento pelo prefeito italiano Gian Marco Scasso.
A iniciativa busca abrir caminho para um futuro acordo de gemellaggio, ou cidades-irmãs, e transformar a ligação histórica entre os dois territórios em oportunidades de cooperação nas áreas acadêmica, cultural, turística e de preservação de acervos. O processo continua em andamento e ainda não representa a formalização de um acordo definitivo.
A conexão remonta a 1836, quando pioneiros oriundos de territórios do então Reino da Sardenha chegaram a Santa Catarina e participaram da formação da Colônia Nova Itália, em São João Batista. Pesquisas genealógicas vêm investigando possíveis vínculos entre famílias pioneiras da colônia e localidades da Ligúria, entre elas Sassello, reforçando a importância de aproximar as comunidades de origem e de destino.
Pesquisa histórica pode ampliar o conhecimento sobre os pioneiros
Além das perspectivas de intercâmbio acadêmico, a aproximação com instituições italianas pode contribuir para o aprofundamento das pesquisas sobre os primeiros grupos de imigrantes italianos que chegaram a Santa Catarina, antes do período da grande imigração, intensificado nas últimas décadas do século XIX.
“Essa aproximação é uma peça importante para buscarmos preencher lacunas da história da imigração italiana no Brasil, especialmente no período anterior à grande imigração. Há anos estamos nos organizando e pesquisando para localizar documentos que ajudem a esclarecer a trajetória dos primeiros grupos que chegaram a Santa Catarina, como os pioneiros de 1836. Uma cooperação mais próxima com instituições italianas poderá facilitar a identificação de fontes e ampliar as possibilidades de pesquisa nos arquivos da Itália”, explica a historiadora Caroline Cavilha dos Santos Hashimito.
No levantamento documental, a historiadora estabeleceu contato com o Archivio di Stato di Genova (Arquivo de Estado de Gênova) para investigar a existência de registros relacionados à viagem dos pioneiros. Em resposta à consulta, recebeu a informação de que as listas de embarque teriam sido descartadas na década de 1950. Esse dado, contudo, não encerra a investigação: outras séries documentais ainda podem oferecer pistas para reconstruir parte dessa trajetória.
Entre as fontes que precisam ser verificadas estão os registros e talões da Cassa di Sanità, ligados à administração sanitária marítima. A consulta a esse material poderá ajudar a avaliar se existem informações relevantes para a pesquisa, mas seu conteúdo ainda precisa ser examinado.
Dos controles sanitários à regulamentação da emigração
A investigação exige considerar o contexto histórico e administrativo em que os documentos foram produzidos, especialmente porque os registros sanitários marítimos e a documentação migratória posterior tinham finalidades distintas.
Em meados da década de 1830, os serviços de sanidade marítima estavam relacionados à fiscalização das condições sanitárias das embarcações e à prevenção de doenças transmissíveis. Entre os instrumentos utilizados estavam as patenti di sanità, documentos vinculados à avaliação das condições sanitárias dos navios e aos procedimentos exigidos para as viagens marítimas.
Esses controles tinham finalidade essencialmente sanitária. Embora os registros administrativos do período possam conter informações sobre passageiros, não se deve presumir que tenham sido elaborados para documentar de maneira completa a identidade, a origem e a trajetória de cada pessoa que emigrava. A presença e a extensão dessas informações dependem do tipo de documento preservado.
Ao longo do século XIX, a administração da emigração italiana passou por mudanças graduais, com o desenvolvimento de normas voltadas especificamente para esse fenômeno. Um marco posterior foi a Lei italiana nº 5.866, de 30 de dezembro de 1888, que entrou em vigor em janeiro de 1889 e tratou especificamente da emigração.
Essa evolução ajuda a compreender por que documentos de épocas diferentes não podem ser tratados como equivalentes. Os controles sanitários marítimos de meados da década de 1830 não tinham a mesma finalidade da legislação migratória posterior, e a existência de normas mais específicas no final do século XIX não significa que já houvesse, décadas antes, um sistema documental equivalente.
Por isso, não é possível presumir que os registros sanitários relacionados ao período de 1835 e 1836 contenham listas completas de passageiros ou dados suficientes para identificar todas as famílias que viajaram para Santa Catarina. A consulta aos documentos originais será necessária para determinar quais informações foram preservadas e se elas podem contribuir para a pesquisa.
As fontes históricas e as lacunas nas listas de passageiros
Entre as referências bibliográficas para o estudo da imigração italiana em Santa Catarina está a obra Primeira página da imigração italiana em Santa Catarina, publicada em 1939 pelo historiador Lucas Alexandre Boiteux. O livro constitui uma referência histórica para a investigação sobre os primeiros movimentos migratórios italianos no estado.
Entre os registros utilizados para reconstruir a composição do núcleo pioneiro está uma relação nominal atribuída ao engenheiro Jacinto Antônio de Matos, que reúne nomes de chefes de família e informações sobre pessoas associadas à Colônia Nova Itália. A análise dessa documentação, reproduzida e discutida em referências históricas posteriores, contribui para o levantamento dos nomes e das trajetórias familiares ligados ao núcleo.
Boiteux menciona a chegada de 186 imigrantes a Santa Catarina em 1836, enquanto a relação nominal associada à formação da Colônia Nova Itália reúne um número menor de pessoas. Uma hipótese em investigação é que nem todos os imigrantes que chegaram ao estado tenham seguido para o núcleo colonial de São João Batista.
De acordo com essa possibilidade, parte dos recém-chegados teria permanecido em Desterro, atual Florianópolis, enquanto outra parte teria seguido para a Colônia Nova Itália. Essa hipótese poderia ajudar a explicar a diferença entre o total de imigrantes mencionado por Boiteux e o grupo relacionado à formação da colônia. No entanto, ainda não há confirmação documental suficiente para estabelecer com precisão o destino de todos os integrantes do grupo que chegou a Santa Catarina.
O esclarecimento dessa questão depende do cruzamento das fontes históricas disponíveis e da localização de novos registros que permitam identificar os passageiros, reconstruir os núcleos familiares e compreender os deslocamentos realizados após a chegada à província.
A pesquisa também busca estabelecer conexões entre sobrenomes encontrados nos registros históricos e localidades da Ligúria. Essas relações constituem linhas de investigação genealógica e geográfica, cuja confirmação depende da análise de documentos que permitam estabelecer vínculos seguros entre indivíduos, famílias e lugares.
Uma relação voltada para o futuro
A articulação entre a Adanpib, instituições italianas e entidades ligadas à Ligúria busca aproximar pesquisa histórica, educação e intercâmbio cultural. Os encaminhamentos para uma videoconferência com a Univali e para a avaliação de um possível curso de italiano ampliam as perspectivas de cooperação, enquanto a aproximação entre São João Batista e Sassello fortalece os vínculos entre as comunidades.
Mais do que preservar a memória da emigração, a proposta é fazer com que esse patrimônio histórico continue gerando oportunidades de estudo, cooperação e aproximação entre as gerações atuais e futuras.
Sobre a Adanpib
Criada em 2017, a Associação dos Descendentes e Amigos do Núcleo Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil (Adanpib) atua no resgate e na preservação da história, da cultura e da fé dos pioneiros que fundaram a Colônia Nova Itália, em Santa Catarina, em 1836. Entre suas iniciativas estão a pesquisa histórica e genealógica, a valorização dos acervos documentais e o fortalecimento dos vínculos culturais entre o Brasil e as localidades italianas relacionadas à trajetória dos pioneiros.



