A obra foi entregue ao museu pela pesquisadora brasileira Maria Fernanda Silva Almeida, durante sua passagem pela Itália. O exemplar foi encaminhado pela Associação dos Descendentes e Amigos do Núcleo Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil (Adanpib), e recebido por Joice de Medeiros, brasileira integrante da equipe de curadoria do Mei.
O gesto ocorre em um ano simbólico: em 2026, a Colônia Nova Itália completa 190 anos de sua formação, iniciada em 1836, quando 186 imigrantes chegaram a Desterro, atual Florianópolis, e parte deles seguiu por terra até o Vale do Rio Tijucas-Grande, onde se estabeleceu o núcleo colonial.
Vindos principalmente da Ligúria e do Piemonte, então territórios do Reino da Sardenha, os imigrantes faziam parte de um contexto histórico anterior à formação do Estado italiano. O Reino da Sardenha era um dos principais centros políticos e econômicos do movimento que posteriormente impulsionaria o processo de unificação italiana.
É essa história que José Sardo passou mais de duas décadas pesquisando e registrando. Descendente de pioneiros da Colônia Nova Itália, o memorialista transformou documentos, relatos e pesquisas genealógicas em uma obra dedicada à formação e à continuidade da comunidade.
Para Sardo, entretanto, preservar essa história sempre significou mais do que registrar o passado. Em mensagem enviada à pesquisadora, ele comparou a memória da colônia a uma semente que permaneceu adormecida até ser cultivada pelas gerações seguintes.
“A nossa história foi uma semente adormecida, que germinou. (…) Hoje ela está se gerando, está uma árvore grande.”
Aos 76 anos, o autor afirma enxergar sua trajetória como um legado a ser continuado por quem vem depois.
“Meus passos estão diminuindo, mas os passos estão abrindo para aqueles que ficarem e quiserem a continuidade.”
Sardo também reforçou a confiança nas novas gerações para preservar a história da comunidade. “Tenho certeza que vocês vão saber preservar, vão saber honrar esse legado”, afirmou.
Memória catarinense em Gênova
Para o Mei, a aproximação com comunidades italianas no exterior, pesquisadores e produções históricas realizadas pelas próprias comunidades possui importância para o trabalho de preservação da memória migratória.
Ao comentar o recebimento do livro, a instituição destacou o valor cultural da obra e afirmou que ela passa a enriquecer seu patrimônio bibliográfico, contribuindo para preservar e divulgar a memória coletiva das experiências migratórias que marcaram a história da Itália, especialmente a emigração transoceânica com destino ao Brasil.
O diretor do Mei, Pierangelo Campodonico, também destacou a dimensão da comunidade italiana no Brasil e o trabalho desenvolvido por associações dedicadas à preservação dessa memória. Segundo ele, a ADANPIB desempenha papel fundamental na proteção da memória da Colônia Nova Itália, que definiu como “núcleo pioneiro da emigração italiana no Brasil, fundado em 1836, no estado de Santa Catarina”.
A entrada do livro no acervo do MEI também representa um reconhecimento da importância de aproximar a produção histórica realizada pelas comunidades brasileiras das instituições italianas dedicadas ao estudo das migrações.
A pesquisadora que levou a obra à Itália
Maria Fernanda Silva Almeida atua na área de Relações Públicas e possui formação em Museologia, Gestão de Exposições e Curadoria. Sua pesquisa envolve a imigração italiana e as formas de preservação e apresentação da memória migratória em instituições culturais.
Durante sua viagem à Itália, ela visitou o MEI, em Gênova, onde encontrou Joice de Medeiros e realizou a entrega do exemplar de José Sardo.
Para a pesquisadora, o episódio cria uma ligação concreta entre a pesquisa produzida no Brasil e uma instituição italiana voltada especificamente à história da emigração.
A iniciativa ganha ainda mais significado em 2026, quando São João Batista celebra os 190 anos da formação da Colônia Nova Itália e amplia suas conexões com a Itália, incluindo a aproximação institucional com o município de Sassello, na Ligúria.
Mas, para além das celebrações, o livro cumpre uma função permanente: guardar a memória.
A história que começou com a travessia de homens e mulheres da Europa para o Brasil agora faz também o caminho inverso. Uma obra produzida em Santa Catarina sobre essa comunidade retorna à Itália e passa a ser preservada em Gênova.
A pesquisadora brasileira Maria Fernanda Silva Almeida entrega a Joice de Medeiros, integrante da equipe curatorial do Museo Nazionale dell’Emigrazione Italiana (Mei), em Gênova, uma cópia do livro Nova Itália, a primeira colônia italiana no Brasil, de José Sardo. A obra foi levada à Itália com o apoio da ADANPIB e destinada ao acervo bibliográfico da instituição, onde ficará disponível para pesquisas relacionadas à emigração italiana e à memória das comunidades formadas no exterior.



