Malcon Gustavo Tonini – Historiador

No dia 19 de outubro de 1941, Nova Trento recebeu o interventor de Santa Catarina, o governador Nereu Ramos. Para muitos, tratou-se apenas de uma visita para a inauguração de uma ponte, a convite de Irineu Busnardo, então administrador do município. Aquele ato, na verdade, fez parte da sacralização de uma aliança duradoura entre a oligarquia Ramos e o catolicismo romanizado na cidade. O episódio constitui um indício da cumplicidade entre o Estado, a Companhia de Jesus e as Irmãzinhas da Imaculada Conceição durante o processo de nacionalização do município no governo do presidente Getúlio Vargas. Nereu Ramos esteve em Nova Trento para inaugurar uma obra que levava seu próprio nome, uma homenagem que representava a subserviência do poder político em meio a um evento de forte cunho religioso.
Havia escolas estaduais no município, mas a festa de inauguração da ponte ocorreu em uma escola confessional. A fotografia que ilustra este texto foi tirada por ocasião da recepção ao governador em sua chegada a Nova Trento, antes de se dirigirem ao pátio do Colégio Paroquial São Virgílio, cujo prédio foi demolido em 2003. A imagem destaca personagens históricos da cidade: de costas, o Pe. Lidvino Santini, abraçado ao governador; ao fundo, a diretora do colégio, Irmã Maria Júlia. As crianças que aparecem ao lado da freira eram estudantes do ensino primário dessa escola, incluindo filhos do prefeito Irineu.
Com a conivência da Companhia de Jesus, a Irmã Maria Júlia tornou-se um dos símbolos da educação católica neotrentina, dirigindo as principais escolas da região central do município desde a década de 1940. A madre mostrava-se adepta da ideia de que a escola poderia produzir um “cidadão ideal” a partir da moldagem do caráter do indivíduo, sujeito desejado pelo varguismo e que deveria aderir aos pressupostos do progresso e do desenvolvimento nacional.
Embora quase esquecida pela historiografia da cidade, Maria Júlia traduziu, em suas ações, um plano organizado pelo Estado, algo bastante característico da Era Vargas. No Colégio São Virgílio, no Juvenato São José e, posteriormente, no Grupo Escolar Lacerda Coutinho, observaram-se estruturas ideológicas rígidas e disciplinares, conduzidas e impostas pela freira. Além disso, Maria Júlia mantinha o controle sobre tudo o que circulava dentro e fora das escolas sob seu comando, bem como sobre um corpo docente formado, em sua maioria, por freiras, que estavam sempre à sua disposição para atuar na manutenção de teorias e práticas vinculadas aos ideais das reformas educacionais associadas ao grupo político liderado pela oligarquia Ramos.



