Cristiéle Borgonovo
Aos 14 anos, Sandra Aparecida Freitas, conhecida carinhosamente como Sandrinha, deu os primeiros passos no mercado de trabalho. Natural do bairro Fernandes, em São João Batista, foi na indústria calçadista que encontrou a profissão e construiu uma trajetória que atravessa gerações. Hoje, aos 55 anos, ela continua trabalhando como sapateira, mesmo depois de ter conquistado a aposentadoria há cinco anos.
A história se confunde com a de tantas mulheres que dedicaram a vida à produção de calçados, contribuindo com habilidade, atenção e esforço para consolidar São João Batista como referência no setor.
Sandrinha começou a trabalhar na extinta fábrica de calçados Lamonella, onde permaneceu por aproximadamente quatro anos, atuando no acabamento e na função de encaixotadora. Depois, foi para a também extinta Calçados Márcia, que pertencia a Getúlio Clemes e, posteriormente, passou para seus filhos. Na empresa, trabalhou por cerca de cinco anos, também no setor de acabamento.
Com o nascimento dos filhos, ela buscou uma alternativa que permitisse conciliar o trabalho com a maternidade. Foi então que passou a atuar em ateliês próximos de casa, uma forma de continuar contribuindo com a renda familiar sem deixar de acompanhar o crescimento das crianças.
Lembranças de uma vida de trabalho
Em 10 de julho de 2000, Sandrinha retornou ao trabalho em uma fábrica de calçados. Desde então, integra a equipe da Camminari Calçados, onde permaneceu até se aposentar e onde continua exercendo a profissão.
Ao recordar o início da carreira, ela resgata a rotina de quem precisava percorrer diariamente o caminho entre o bairro Fernandes e a antiga Lamonella, localizada na rua Augusto Paulo Durkopp. A bicicleta era o meio de transporte, e a marmita acompanhava os longos dias de trabalho.
“Quando eu comecei, eu saía de casa todos os dias de bicicleta para trabalhar. Era lá do Fernandes até a Lamonella, que ficava lá na Rua Augusto Paulo Durkopp. Levava a marmita, almoçava e voltava só no fim da tarde. Se a gente ficava fazendo hora extra até de noite, eles traziam em casa”, relembra.
A memória revela uma época em que a dedicação ao trabalho exigia disposição e sacrifícios, mas também proporcionava oportunidades para construir uma vida melhor. Ao longo dos anos, Sandrinha acompanhou mudanças na indústria e manteve a experiência no setor calçadista.
“Eu amo a minha profissão, mas ser sapateiro já foi mais valorizado. Hoje em dia, os jovens não querem mais estar dentro de uma fábrica trabalhando com calçado”
Aposentadoria não significou despedida
Mesmo aposentada há cinco anos, Sandrinha optou por continuar trabalhando. A renda obtida com a profissão ajuda nas despesas da família e é complementada pela venda de produtos cosméticos.
A decisão também está relacionada ao vínculo que construiu com o ofício ao longo de décadas. Para ela, ser sapateira vai além de uma ocupação: é uma profissão que conhece desde a adolescência e que continua fazendo parte da identidade.
“Eu amo a minha profissão, mas ser sapateiro já foi mais valorizado. Hoje em dia, os jovens não querem mais estar dentro de uma fábrica trabalhando com calçado. Mesmo a mão de obra qualificada sendo escassa, a valorização caiu muito em comparação a antigamente”, pontua.
A observação chama a atenção para um desafio do setor calçadista: reconhecer a experiência dos profissionais e valorizar o conhecimento adquirido ao longo dos anos. Em uma atividade que depende de trabalhadores qualificados, histórias como a de Sandrinha mostram a importância de preservar os saberes de quem conhece cada etapa da produção.
Olhos atentos e mãos habilidosas
Ao longo da trajetória, Sandrinha sempre atuou no acabamento, etapa fundamental para a apresentação e a qualidade final dos calçados. É nesse trabalho minucioso que a experiência faz diferença: cada par precisa passar por uma revisão cuidadosa antes de seguir para o comércio.
Pelos olhos atentos e pelas mãos habilidosas de profissionais como ela passam calçados que, depois de finalizados, chegam às lojas de diferentes regiões do Brasil.
Moradora do bairro Fernandes desde que nasceu, Sandrinha construiu a história sem se afastar das raízes. A caminhada representa a de muitos trabalhadores que, com dedicação diária, ajudaram a desenvolver a indústria calçadista batistense.
No Dia do Sapateiro, celebrado em 25 de outubro, sua trajetória é também um convite à reflexão sobre o valor de quem está por trás de cada produto. São profissionais que acumulam conhecimentos, enfrentam jornadas de trabalho e contribuem para que a tradição calçadista de São João Batista continue presente no mercado nacional.



