Malcon Gustavo Tonini – Historiador

Há muito esquecidos, os cine-teatros do início do século XX foram espaços culturais híbridos que uniram as tradicionais apresentações cênicas e musicais às então recém-surgidas projeções cinematográficas. Na vila que foi sede do município de Nova Trento, um espaço pertencente à família Boiteux foi o primeiro local da cidade a exibir filmes, à época, em sessões que apresentavam produções cinematográficas mudas. A sala de cinema, hoje esquecida, constituiu um espaço de sociabilidade e, durante certo período, foi bastante frequentada, atraindo público e contribuindo para movimentar uma área da região central que, nos finais de semana, permanecia pouco agitada em horários distantes das celebrações religiosas.
Localizada às margens do Ribeirão Alferes, nas proximidades da antiga igreja matriz de Nova Trento, dedicada a São Virgílio e ao Sagrado Coração de Jesus, e próxima à residência do coronel Hyppolito Boiteux, a construção foi palco não apenas de sessões de cinema, mas também de outras atrações artísticas comuns à época. Tratava-se de um período de consolidação de espaços de lazer e convívio social, no qual o cinema se difundiu rapidamente, abrangendo diferentes gêneros, como documentários, westerns, filmes policiais e comédias.
Com uma programação variada, o público neotrentino assistiu a artistas de diferentes procedências no início do século XX. Entre eles, estavam muitos italianos que escolheram o Brasil para viver, como Vitório Bressanelli. O espaço também recebeu as irmãs Mariota e Ida Tonolli. Bressanelli teria apreciado tanto Nova Trento que acabou se casando com uma filha da terra.
Outro italiano, José Julianelli, frequentemente se apresentava no Cine-Teatro, exibindo filmes, muitos deles de sua própria autoria. Julianelli, inclusive, chegou a realizar filmagens em Nova Trento, registrando festas e tradições, além de aspectos geográficos e cenas do cotidiano dos moradores da cidade. Deixou registradas imagens relacionadas à fabricação do vinho em Vígolo, à confecção da seda pelas Irmãzinhas da Imaculada Conceição, à construção de balsas em Baixo Salto e até à produção de cerveja, empreendimento de Giacomo Tomasi. O filme de Julianelli sobre Nova Trento possuía público cativo e foi exibido diversas vezes durante a década de 1920. Uma pena estar perdido no tempo. Muitos dos coronéis urbanos da cidade patrocinavam as produções cinematográficas do cineasta, contribuindo para manter o interesse do público pelas sessões realizadas no Cine-Teatro.
O salão de Hyppolito Boiteux também era movimentado por bailes e, em muitas ocasiões, recebia Dolores Vieira, artista de Florianópolis que vinha a Nova Trento para liderar um grupo de músicos, tocando seu acordeom. A sociedade neotrentina comparecia com assiduidade aos eventos musicais realizados no Cine-Teatro. Outro grupo local também animava os bailes da cidade: o Clube dos Bandolinistas Força de Vontade. Entre seus músicos estavam Vicente Poli, Vitório Bressanelli, Egidio Piazza, Luiz Busnardo, Francisco Prada, Nicolau Bado, Emilio Ovidio Gottardi, Francisco Mazzola, Lino Piazza e Giacomo Tomasi. Tocavam instrumentos de corda, dos violinos aos violoncelos, sem deixar de lado o tradicional violão.
E assim se constituía parte das práticas de lazer de muitos neotrentinos que viviam nas proximidades da área urbana mais povoada da cidade. Muitos dos que se dirigiam à região atraídos pelo comércio acabavam conhecendo, em uma breve passagem pelo cinema, um mundo de possibilidades, apresentado por Julianelli, mas também por Mary Pickford, Theda Bara, Tom Mix, Douglas Fairbanks, Rodolfo Valentino, Buster Keaton, Greta Garbo e pelo gênio do cinema, Charles Chaplin. Quanto ao prédio que recebeu o Cine-Teatro, hoje ele não existe mais. Isso, contudo, não significa que sua presença tenha sido menos importante no passado, quando contribuiu para ampliar as possibilidades de lazer e para alegrar a vida de muitas pessoas em Nova Trento. Para além do Cine-Teatro Hyppolito Boiteux, outros dois também existiram ao longo da história da cidade.
Referência bibliográfica:
BURNARDO, Irineu. O CINE-TEATRO HYPPOLITO BOITEUX, s.d. Datilografado. Acervo pessoal de Moacir Antônio Facchini.


