Cristiéle Borgonovo
No próximo dia 7 de agosto, o senhor João Hercílio Jacinto completará 90 anos. Quase oito décadas desse tempo foram vividas no bairro Fernandes, onde constituiu a família, trabalhou na agricultura e testemunhou a transformação de uma pequena comunidade na atual Capital Catarinense do Calçado. Hoje, morando no Centro, ele olha para o passado com a serenidade de quem ajudou a escrever parte da história do município.
Nascido antes mesmo da emancipação político-administrativa de São João Batista, João Hercílio viu o distrito deixar de pertencer a Tijucas e iniciar um novo capítulo. Mas as primeiras lembranças remetem a uma realidade muito diferente da atual. “O Fernandes era só plantação de café. As casas eram longe umas das outras e não existiam ruas como hoje, eram apenas ruelas e trilhas”, recorda.
A infância também foi marcada por dificuldades. Ainda jovem, aos 16 anos, perdeu o pai, Hercílio João Jacinto. Filho único, precisou assumir a responsabilidade pelo sustento da casa, onde vivia ao lado da mãe, Ana Serpa Jacinto.
Foi com o pai que aprendeu o trabalho na agricultura, atividade que o acompanharia durante praticamente toda a vida.
As lembranças da infância revelam um cotidiano simples, mas repleto de histórias. João recorda que, quando tinha cerca de sete anos, ainda existiam pessoas submetidas ao trabalho escravo na região. Segundo ele, esses homens eram utilizados principalmente na moagem da cana-de-açúcar, atividade que posteriormente passou a ser realizada por juntas de bois.
A rotina exigia esforço desde muito cedo. Para participar da missa aos fins de semana, caminhava do Fernandes até o Centro da cidade. Vinha descalço, pois a família não tinha condições de comprar chinelos.
O mesmo acontecia para estudar. Todos os dias percorria aproximadamente três quilômetros até a escola. Estudou até a quarta série e lembra com orgulho daquele período. “Eu gostava muito de estudar e nunca faltava às aulas. Sempre tirava boas notas.”
Mas continuar os estudos era praticamente impossível. Quem desejava seguir além da quarta série precisava se deslocar até Tijucas, uma realidade distante para muitas famílias da época.
A fábrica de vassouras
A agricultura permaneceu sendo o principal sustento. Com espírito empreendedor, decidiu abrir uma fábrica de vassouras no Fernandes. O negócio prosperou, mas administrar a empresa e trabalhar na produção ao mesmo tempo tornou-se inviável. A solução foi vender a fábrica ao amigo Manoel Sertório Alves, o saudoso Manecão. Sem imaginar, aquela decisão faria com que os caminhos profissionais voltassem a se cruzar poucos anos depois.
Depois de vender a fábrica de vassouras, João retornou ao trabalho na agricultura. No entanto, um problema de saúde o obrigou a interromper temporariamente as atividades no campo. Foi então que recebeu um convite inesperado do amigo Manecão. “Ele foi lá em casa e pediu para eu ensinar os funcionários a fabricar vassouras. Eu disse que ajudaria por um mês.”
O que seria apenas um período de transição transformou-se em cinco anos de trabalho. João assumiu a gerência da empresa, que contava com 12 colaboradores, compartilhando o conhecimento adquirido desde a criação da fábrica.
As atividades foram encerradas após o trágico acidente que tirou a vida de Manecão, que também exercia mandato como vereador em São João Batista. Mais uma vez, João voltou às origens. “Foram 32 safras plantando fumo. Depois plantei cana para a Usati”, conta, resumindo décadas dedicadas ao trabalho no campo.
Uma grande família

João, a esposa Ivanir, sete filhos e a mãe, Ana, a filha caçula ainda não havia nascido
A vida também lhe reservou alegrias. Aos 27 anos, casou-se com Ivanir Bacca Jacinto, com quem construiu uma família numerosa. O casal teve oito filhos; quatro homens e quatro mulheres, criados com muito trabalho, dedicação e carinho. Hoje, a família reúne ainda 15 netos e cinco bisnetos.
Ao recordar os quase 90 anos de vida, João percebe que sua história se mistura com a evolução de São João Batista. Ele viveu o tempo em que as casas eram iluminadas apenas por lampiões de querosene e acompanhou a chegada da energia elétrica, um dos acontecimentos que mais transformaram a vida da população.
“A primeira televisão colorida no Fernandes foi eu quem tive. Era uma tecnologia que só”, relembra entre risos. Mas nenhuma novidade tecnológica o impressionou tanto quanto o primeiro veículo motorizado que passou pelo bairro. “Foi quando passou um jipe pela primeira vez. Antes só passavam carros de boi, carroças e cavalos. Quando vimos aquele jipe, não fui só eu, todos foram na rua para olhar, porque nunca tinham visto uma coisa daquelas”.
Outra lembrança marcante foi a compra do primeiro telefone celular. Na época, precisou viajar até Florianópolis para adquirir o aparelho, algo impensável para quem hoje vê a tecnologia presente em praticamente todos os lares.
Nove décadas de vida
Ao longo de nove décadas, João testemunhou a chegada da energia elétrica, dos calçamentos, asfaltos, avenidas, escolas, hospital, postos de saúde, pontes e edifícios. Viu uma pequena comunidade agrícola tornar-se referência estadual pela força do empreendedorismo e da indústria calçadista.
Enquanto São João Batista celebra seus 68 anos de emancipação político-administrativa, a trajetória de João Hercílio Jacinto permanece como um retrato vivo da cidade: alguém que cresceu junto com o município, enfrentou as dificuldades do passado, trabalhou com dignidade e acompanhou, dia após dia, a construção da São João Batista que existe hoje.


